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Gilliatt

Parte Cinco

Operação Resgate

 

Por motivos profissionais tive que ir para Rio de Janeiro e o barco ficou naquele estaleiro à deriva Contavam-me horrores dele. Uns diziam que virou ferro velho perto de Itapoã. Outros, retalharam-no todo para teste de admissão de maçariqueiros na empresa . Notícias que os mil e seiscentos quilômetros de distância pioravam mais ainda. Junto com a minha úlcera. E a obsessão tornou-se apenas uma: voltar à Bahia para resgatar o barco.

Só pude voltar um ano depois. Cenário um: a administração do estaleiro já mudara duas vezes, e a última cultivava um ódio talibã particular contra veleiros e outro objetos estranhos ao meio. Cenário dois: o barco expulso da Oficina estava totalmente entregue à maresia e ao tempo, era ferrugem puro. E havia uma fatura com valor astronômico devido à cobrança de diárias de "docagem" daquele casco velho e corroído.

Como num passe de mágica, todo o pesadelo dissipou. Jateei o casco todo, pintei e embarquei num navio rumo ao Rio.

Foi um acontecimento inédito em toda a história da navegação: um casco de veleiro oco , sem vela , navegou.

Um veleiro oco, sem vela , mas com aquela alma que não era pequena.

 

Parte Seis

Muito além do mar

 

"Braços cruzados, fita além do mar,

Parece em promontório uma alta serra

O limite da terra a dominar

O mar que possa haver além da terra"

F. Pessoa

Goethe afirmava que, para alcançar, era preciso buscar o reverso. No meu caso, de tanto procurar o mar, cheguei às montanhas. É para onde o barco veio parar.

Quando o guindaste desembarcou o casco sobre a carreta, à beira do cais, iniciava outro desafio da viagem, a parte terrestre . Foi numa Scania Vabis antiga, um João de Barro ano 64, do Toninho da carreta, hoje um grande amigo, que o casco cumpriu um verdadeiro rali de emoção, atravessando o centro da cidade, parando o trânsito, morrendo na contra-mão, engatando a ré diversas vezes devido a altura dos viadutos, tirando raspão de passarelas da Avenida Brasil e tentando escapar dos fios de alta e baixa tensão naquele balaio de gato dos subúrbios,e claro,  certificando-se sempre se não era horário de alguma novela global, pois, em caso de ruptura de rede elétrica, o linchamento era certo.

Foi nesse galpão cercado de mata atlântica, distante do sereno marinho ,dos alísios e dos sudoestes bravios, que o casco velho e corroído encontrou a pausa para prosseguir na sua busca.

Longos anos adormecido nas vãs tentativas de seguir .

Nessa fase, os finais de semana e as noites eram sagrados e inteiramente dedicados nessa busca. Era o tempo que me sobrava do meu trabalho, o que somava no total uma carga horária de oitenta horas semanais.

O que fiz na Bahia naqueles seis meses, tive que refazer em dez anos. Foi obra para desempeno das chapas que apresentaram empenos devido à soldagem e correção da obra do convés. Muitas horas de maçarico, água, macaco hidráulico e paciência.

O resto foi obra de acabamento, ou seja, aquela que acaba com a gente, ou melhor, com bolso da gente. Nessa época, foi-se um apartamento e um carro.

De tão absorto na obra, sem sentir o cheiro do mar tanto tempo, eu me perguntava: será que esse tal de marzão ainda existe?

 

 

Parte Sete

Mensagem Final

 

Não se iludam . Sete capítulos condensados apenas representam uma ínfima parte dos acontecimentos menos despretensiosos da vida. A história de se construir um barco num país zero de tradição náutica e infinitas dificuldades é por si só uma façanha, da qual não me desnudo da modéstia.

Na Franca, fazer barco no fundo de quintal é normal.

Dar volta ao mundo num veleiro, sozinho ou com a família e cachorrinho de estimação é rotina européia, mesmo passar uma temporada na Antártida, como fez Amir Klink, um grande navegador brasileiro, digno de justos louvores.

Preciso é que, num país como este, advindo de uma nação de um grandioso passado marítimo, que foi Portugal, ninguém fique incrédulo e, sobretudo, não sabote as mínimas tentativas de iniciativas de construir tais objetos de desejo . Incentive-as, sim, ora pois !!!!!

Apenas mostrei um pouco dessa história, retirado do livro de bordo no qual está registrado o capítulo mais dramático da viagem, que foi construir o barco com as próprias mão no nosso país.

Se quiserem saber mais, basta folhear mais. Não faltam histórias e estórias.

Vamos aqui registrar especialmente os personagens imprescindíveis , sem os quais essa história simplesmente nem existiria: Kelvin Rothier, saudoso amigo e maior conhecedor de embarcações que o país já teve, hoje navegando solene em águas de outro mundo, que me inspirou a seguir este caminho; Christianne, sua filha, amiga querida. Solange, a minha eterna guru e Marcos, cariocas, do Jamanxim, um belo alumínio de 34 pés, todo branco, com desenho de pássaros vermelhos voando em direção a proa, que me contagiaram com o vírus, durante a sua passagem em Salvador em 1985/86, início da volta ao mundo de dez anos, cujo leme ajudei a reparar. Guilhermo e Marta, argentinos, do Charran, um Manoel Campos belíssimo de 42 pés, casco de aço redondérrimo, que ajudei a reparar após o quase naufrágio em Abrolhos, no início da mesma viagem volta ao mundo. André Merchentel, francês de Antibes, do Ajime, multi-chine de aço 36 pés, construído por ele mesmo, deu-me dicas valiosíssimas.

O paulista Roberto Way , da escuna Senhor das Ilhas, cuja quilha projetei e construí, salvando o seu barco de emborcar no Caribe, e que me proveu parte do lastro para o meu barco.

A tripulação do francês Katoupilé, que me vendeu o mastro a preço de banana, após colisão em Aracaju e receber mastro novo do seguro. O genial físico maluco paulista Wilson Ohl, velejador e companheiro de trabalho , o protetor incansável das hostes que afligiam o barco após deixá-lo indefeso em Salvador.

O Bob e Dóris, do Dóris, um Van de Stadt de aço, construído por eles mesmo, cúmplices das mesmas angústias. O Zick, do Panda, um Van de Stadt de fibra, construído pelo próprio, que me ensinou o que é uma adriça .

Enfim, cada qual é uma história por si só, mas que fez nascer esta história.

A primeira fiada de chapa e a primeira caverna, a gente nunca esquece. A razão de ser dessa breve relato.

Se alguém , algum dia , encontrar com uma gatinha branca, olhar doce e perdido, andando por um cais ou por um galpão, por favor, diga-me onde ele está.

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