Gilliatt
Parte Quatro
A Grande Virada

Quando foi dado o último cordão de solda, uma estranha sensação de tristeza invadiu a minha alma. Lá fora, as estrelas brilhavam no firmamento , uma brisa corria leve e solto após aquele dia chuvoso, como sempre ocorre no inverno baiano. Debaixo daquele céu de amianto silencioso, dentro da Oficina de Estruturas, parece que o tempo queria parar. Sentado, imóvel, olhava aquele casco em forma de baleia, totalmente redondo, de tão redondo que seus reflexos nas poucas lâmpadas mistas ofuscavam-me a vista e a memória. Nem mais me lembrava quando que entrei naquele galpão a primeira vez para enfrentar aquele desafio. Engraçado, eu devia estar contente e feliz... Mas não estava. Via isso pelos olhos da Mimi. Ela sabia que a aventura maior acabava de acabar. A baleia se encontra de cabeça para baixo e amanhã ela vai virar, cabeça para cima.
Vai virar barco. Era a sina. Mimi estava inconsolável.
Na verdade, acabava de vencer um desafio. Foram seis meses, 14 horas por dia, 2520 horas de trabalho, 12000 kg de aço processado, 7600 kg de aço resultante, 360 kg de eletrodo de solda e um sonho que nasceu redondo.
Não podia deixar de escolher um dia de santo , dia 24 de Junho, São João, um daqueles bem fortes naquela terra. Queria plena garantia . Desprezei todos os cálculos de elementos finitos feitos no computador . Importava era encontrar aquela meia dúzia de peões, naquele feriado sagrado em plena Bahia, uma missão impossível!!!! Como iria fazer essa manobra de um peso, mais de sete toneladas para girar, sozinho? ESó me restava rezar para que a delicada operação de virada desse certo.
De repente aparece o Mestre Mário, o Lourival, o Augusto e um monte de gente , vindo não sei de onde.
O resto foi só festa, emoção e lágrimas. A baleia
tinha virado barco.
Foi a última vez que vi Mimi.

E foi-se, tão misteriosamente como surgiu.
Tempos depois é que fui entender a sua emblemática presença naqueles momentos históricos da construção do barco. Bem antes das primeiras fiadas de chapa se soldarem, quando as cavernas ainda estavam amontoadas no piso da oficina, quis o destino que a Cristina, a Cris, alma benfazeja, das amizades forjadas pelo tempo, vindo da distante paulicéia, em sua rápida e efêmera passagem pelas terras baianas de seus ancestrais, sentisse de perto aqueles primeiros suores e testemunhasse o solene momento da batida de quilha, ato simbólico da construção de toda embarcação, tornando-se assim, irreversivelmente a legítima madrinha daquele barco que acabara de nascer naquele instante.
Da candura de seus olhos felinos, irradiando esperança e abençoando aquele monte de metal de destino ainda incerto, a única certeza: Mimi havia sido enviada por ela.