Gilliatt
Parte Três
Como nasce um Barco

Foi naquele silêncio noturno de um galpão que cultivei as maiores agruras e um dos maiores sustos da minha vida. Contavam-me os operários que aquele era um lugar mal assombrado, após o expediente . Resolvido a construi-lo com as próprias mãos, tornei-me caldeireiro, soldador, maçariqueiro, montador, tudo ao mesmo tempo e eis que vi-me naquele espaço enorme, cheio de máquinas vazias , sòzinho, no meio da noite, sempre trabalhando após o expediente, contrariando uma tradição baiana . De súbito, um gemido e um vulto branco passou voando num canto escuro. Com a cabeça enfiada dentro do meu macacão, trêmulo, rezei por todos os orixás e santos de que pude me lembrar, era o início do final da grande aventura. Quando descobri a cabeça, estava junto aos meus pés uma linda gatinha branca, olhar doce, miando e fitando meus olhos, agora maiores que os dela. Queria comida e cafuné.
Mimi, que assim passou a se chamar, foi a minha grande companheira naquele galpão escuro e desumano por todo o tempo, testemunha ocular única, em todos os passos da construção solitária do casco pioneiro, viu como uma chapa reta vira curva, viu de como uma cantoneira de aço reta vira uma dupla caverna curva, viu como um esqueleto de barco, de cabeça para baixo se transformou em um casco com forma de baleia, seis longos meses depois.
Foi então que entendi também que, na terra de todos os santos, ultrapassar qualquer horário de expediente ou feriado , trabalhando, além de extremo sacrilégio, torna qualquer lugar em local "mal assombrado", ou seja, não desejado por ninguém.