O declínio da
cana-de-açúcar, a interiorização do café e a
política governamental, beneficiando outros portos -
como os de Santos e do Rio de Janeiro - determinaram
a estagnação econômica da região a partir do
final do século passado. Isolados dos grandes
centros urbanos do país, vivendo numa área à qual
só se chegava por estradas precárias ou por mar, os
caiçaras da costa entre Rio e Santos mantiveram suas
tradições e costumes.
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Até o final da década de
50, viveram sossegados. Não faltava o peixe nosso de
cada dia e a farinha de mandioca, o açúcar e o
café, o feijão e o milho, obtidos em roças de
subsistência. As frutas nativas eram abundantes -
embarcações e mais embarcações
"chapadas", como dizem os caiçaras, de
frutas vindas de Ilhabela (banana, mamão e
tangerina, mas também abiu, cambucá e
fruta-do-conde) chegavam a Santos. Para os caiçaras,
o mar sempre representou um manancial de alimento. E
mais, proporcionava-lhes uma idéia de liberdade
infinita.
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Nos anos 60, o quadro de
isolamento começou a mudar: a saturação do turismo
na baixada Santista fez com que as pessoas de maior
poder aquisitivo procurassem novos locais de veraneio
à beira-mar. Abriram-se novas vias de acesso ao
litoral norte paulista, ao mesmo tempo em que a
Petrobrás construiu, em São Sebastião e
posteriormente em Angra dos Reis, os dois maiores
terminais de derivados de petróleo da América
Latina. Mas foi a Rodovia BR-101 que, rasgando a
região no início dos anos 70, jogou o caiçara
dentro de uma realidade que lhe era totalmente
estranha e para a qual não estava preparado. Justo
ele, que nem conhecia o valor do dinheiro.
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Jair da Anunciação,
caiçara da praia de Trindade, em Paraty, não
esquece que cresceu sem conhecer dinheiro. Quando
menino, acompanhava os pais e os demais adultos na
viagem mensal que faziam ao centro urbano de Paraty,
numa caminhada que durava cerca de dez horas. Os
caiçaras de Trindade levavam peixe seco, farinha de
mandioca e banana para trocar por mercadorias
existentes na cidade. De volta à praia, depois de
dormir uma noite na casa de parentes e amigos, os
trindadeiros traziam sal - indispensável não só
para alimentação, mas também para a conservação
dos peixes - querosene para os lampiões e,
eventualmente, um pano bonito para a roupa
domingueira.
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O sentimento de liberdade
proporcionado pela vastidão do mar era responsável
pelo orgulho dos caiçaras. Assim como Jair da
Anunciação lembra a caminhada mensal até a cidade
de Paraty, o caiçara Benedito de Matos, de Ilhabela,
recorda com saudade a vida independente que levava.
"Naquela época, a gente era dono do próprio
tempo. As festas eram comemoradas sempre no dia do
santo e não como agora, que tem de se um domingo
antes ou um domingo depois, pois está todo mundo
trabalhando para os outros".
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