Muita coisa mudou na vida dos
antigos moradores desse trecho do litoral brasileiro.
Vivendo de uma economia de subsistência, o caiçara
estava despreparado para uma sociedade de consumo.
Sem conhecer o valor do dinheiro, muitos venderam
suas terras por "milhares de mil-réis",
como eles dizem, e foram morar na periferia das
cidades da região. Outros foram literalmente
expulsos de suas praias. A noção de posse da terra
dos caiçaras é semelhante à dos índios guaranis,
que ainda habitam essa parte do litoral. Um velho
caiçara da ilha do Montão de Trigo, na costa sul de
São Sebastião, diz a quem interessar: "Você
não sabe que a terra é de Deus e nós só usa ela?
O papel que diz que uma terra é de um homem não
vale nada"...
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Nos cartórios de Paraty,
comenta-se que, se todos os títulos de propriedade
que lá apareceram fossem verdadeiros, o município
teria de ter seis andares. Após a abertura da
Rodovia Rio-Santos, a valorização das terras
resultou num dos maiores surtos de especulação
imobiliária já presenciados no país. Posseiros da
terra, desprovidos de documentos, os caiçaras
tiveram de enfrentar poderosos grupos econômicos que
se diziam proprietários de suas praias.
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O turismo que se instalou na
terra dos caiçaras mudou a paisagem da orla. Onde
antes somente havia casas sem delimitações de
terreno, erguem-se agora altos muros que protegem as
segundas residências de pessoas que estão radicadas
em outras localidades. Maria Dita, caiçara da praia
de Maresias, em São Sebastião, não entendo o
porquê disso tudo. "Eu sei que aquele não é
mais o meu terreno. Por que, então, fechar a vista
para o mar?"
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