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Caiçara que é caiçara tem o mar como eterna referência. O céu está coberto de estrelas e o dia longe de clarear, mas os homens já estão reunidos na praia para "visitar" suas redes instaladas no oceano. Em seus barcos de pesca ou em suas canoas de voga, como são conhecidas as longas embarcações movidas a remo, o caiçara se sente à vontade, enfrentando tanto o tempo bom quanto as tempestades. "O mar é a minha casa ", afirma orgulhosamente Malaquias, um caiçara do Bonete, praia de Ilhabela situada do lado do mar aberto, à qual somente se chega de barco, a pé ou, com muita sorte, de jipe.

 

Um pescador "visita" o cerco, técnica de origem indígena que mantém cercados e vivos os peixes no mar

Numa sociedade em que as funções sociais são bastante definidas, o oceano é um território masculino. Na ilha de Búzios, uma das tantas que compõem o município-arquipélago de Ilhabela, ao lado das grandes embarcações dos adultos, as crianças remam em pequenas canoas feitas especialmente para elas. Essa brincadeira, que as prepara par a vida no mar, é compartilhada por meninos e meninas. Porém, na medida em que a menina caiçara se torna adolescente e mulher, sua atuação na comunidade se dará longe do mar aberto.

 
 

Numa sociedade em que as funções sociais são bastante definidas, o oceano é um território masculino. Na ilha de Búzios, uma das tantas que compõem o município-arquipélago de Ilhabela, ao lado das grandes embarcações dos adultos, as crianças remam em pequenas canoas feitas especialmente para elas. Essa brincadeira, que as prepara par a vida no mar, é compartilhada por meninos e meninas. Porém, na medida em que a menina caiçara se torna adolescente e mulher, sua atuação na comunidade se dará longe do mar aberto.

A mulher caiçara trabalha em casa, cuidando dos filhos; na roça, cultivando mandioca, feijão e algum milho; e nas rochas molhadas pelo mar, catando mariscos junto à criançada. Muitas delas se tornaram caseiras dos moradores eventuais da região, cujas residências de verão estão construídas em terrenos que já foram da família.

 

 

Benedito de Matos não teve filhos homens. Apesar de sua filha mais velha comandar um barco de pesca "como poucos mestres fazem", esse pescador artesanal não permite que ela o substitua em sua faina no mar. Quando ficar mais velho e não puder comandar a embarcação, Benedito vai vendê-la. "O que não iriam falar de minha filha, se ela ficasse no meu lugar?" A sociedade caiçara tem regras rígidas e o lugar da mulher não é definitivamente, pensa Benedito, no mar.

Da chuva, do mar, do rio, as águas seguem o caiçara do momento em que ele nasce ao momento em que ele morre

"Os homens têm a pesca e o futebol; a gente só tem a igreja "explica uma jovem de saia e cabelos compridos. As mulheres caiçaras freqüentam cada vez mais as numerosas igrejas evangélicas que se instalaram nas praias mais distantes. Numa das igrejas do Bonete, os cultos acontecem pela manhã, ao meio-dia e à noite. Mesmo com as portas fechadas, dá para ouvir os gritos chorosos que vêm de dentro. Para Pedro Vicente, velho caiçara da ilha de Búzios, as igrejas evangélicas" estão tirando a alegria de viver que sempre existiu em nosso povo: hoje estão morrendo as festas de Santa Verônica, padroeira do Bonete, e de São Pedro, pescador, padroeiro de nossa ilha, pois viraram pecado para os crentes ".

O artesanato caiçara é uma arte compartilhada por homens e mulheres. São famosos e muito procurados as redes e tapetes, os pássaros e gamelas de madeira. Mas uma atividade tipicamente feminina, como a das "paneleiras" do bairro de São Francisco, em São Sebastião, está desaparecendo. Hoje, essa tradição de cerâmica utilitária, herança cultural indígena, só tem uma seguidora: dona Adélia Barsoti. "As moças de agora não querem mais amassar o barro", afirma essa mulher de quase 70 anos. E mesmo o barro, antes abundante na região, está difícil de ser encontrado, pois construções ocupam os lugares onde era apanhado.

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